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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Pobres: urgência sempre atual

*Por Dom Pedro Carlos Cipollini

No domingo, dia 17 deste mês, por iniciativa do Papa Francisco, celebrou-se o terceiro Dia Mundial dos Pobres, com o lema: “A esperança dos pobres jamais se frustrará” (Sl 9, 19). Estas palavras expressam uma grande verdade: que a fé consegue gravar, sobretudo no coração dos mais pobres, a esperança perdida devido às injustiças, aos sofrimentos e à precariedade da vida serão superados com a força de Deus.

Neste ano, o "Dia Mundial dos Pobres" teve o lema: “A esperança dos pobres jamais se frustrará”, ressalta Dom Pedro Carlos Cipollini | Foto: Divulgação

O Papa nos explica: “A opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora, é uma escolha prioritária que os discípulos de Cristo são chamados a abraçar para não trair a credibilidade da Igreja e dar uma esperança concreta a tantos indefesos. É neles que a caridade cristã encontra a sua prova real, porque quem partilha os seus sofrimentos com o amor de Cristo recebe força e dá vigor ao anúncio do Evangelho”.

O compromisso dos cristãos, por ocasião deste Dia Mundial e, sobretudo na vida ordinária de cada dia, não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem aumentar em cada um, aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade. Esta atenção amiga é o início de uma verdadeira preocupação pelos pobres, buscando o seu bem.

Temos que admitir que não é fácil ser testemunha da esperança cristã no contexto cultural do consumismo, sempre propenso a aumentar um bem-estar superficial e efêmero. Requer-se uma mudança de mentalidade para redescobrir o essencial, para encarnar e tornar incisivo o anúncio do Reino de Deus que é justiça e paz!

É necessário colocar de parte as divisões que provêm de visões ideológicas ou políticas, fixar o olhar no essencial que não precisa de muitas palavras, mas de um olhar de amor e de uma mão estendida. Nos lembra o Papa Francisco: “Nunca vos esqueçais que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. É certo que os pobres também se aproximam de nós, porque estamos a distribuir-lhes o alimento, mas aquilo de que verdadeiramente precisam ultrapassa a sopa quente ou a sanduíche que oferecemos. Os pobres precisam das nossas mãos para se reerguer, dos nossos corações para sentir de novo o calor do afeto, da nossa presença para superar a solidão. Precisam simplesmente de amor...”.

Em nossa Diocese de Santo André foram atendidos inúmeros pobres em variados locais ao lado de nossas Igrejas ou nas praças ao seu redor. Os pobres adquirem verdadeira esperança, não quando nos veem gratificados por lhes termos concedido um pouco do nosso tempo e nossos bens, mas quando reconhecem no nosso sacrifício, um ato de amor gratuito que não procura recompensa.

Para que a atenção aos pobres seja constante, nossa Igreja Diocesana vai instituir oficialmente no dia 30 de novembro, dia de Santo André nosso padroeiro, o Vicariato Episcopal da Caridade Social. Este Vicariato da Caridade estará mobilizando todas as forças da Igreja Católica para que em conjunto, trabalhem, a partir da fé, na promoção dos pobres. Não uma promoção meramente assistencialista, mas no empenho para criar consciência e mobilizar forças, que possibilitem a superação de uma sociedade injusta na distribuição dos bens, sociedade que tende a descartar os pobres, quando não lhes oferece as migalhas que sobram.

Enfim, é necessário que esteja sempre em pauta a situação da grande quantidade de pobres e miseráveis. Diante de Deus eles acusam uma sociedade, cujas leis, os detentores do poder, por não serem capazes de dividir a felicidade com todos vivem a infelicidade sob a forma do medo e da desesperança.

Não nos esqueçamos do que dizia São Vicente de Paulo: “Deus ama os pobres e ama os que amam os pobres”. E com certeza, porque é bom, tolera os que não amam os pobres, esperando sua conversão.

*Dom Pedro Carlos Cipollini é bispo diocesano de Santo André.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Renda média: população 1% mais rica ganha 34 vezes mais do que a metade mais pobre

Redação com ABr

O rendimento médio mensal real de 1% da população com maiores rendimentos era de R$ 27.744, em 2018, o que corresponde a 33,8 vezes o rendimento dos 50% da população com os menores rendimentos (R$ 820). Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua) Rendimento de Todas as Fontes 2018, divulgada nesta quarta-feira (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2018, enquanto 1% da população mais rica recebeu, por mês, R$ 27.744, os 50% mais pobres receberam R$ 820 | Foto: reprodução 

Então, enquanto o rendimento médio mensal dos mais ricos teve aumento real de 8,4%, em 2018, os 5% mais pobres tiveram queda nos rendimentos de 3,2%. Se o grupo for ampliado para os 30% mais pobres, em todos houve perdas. Além da queda de 3,2% nos 5% mais pobres, o grupo de 5% até 10% caiu 1,4%. As perdas para o grupo entre 10% e 20% foram de 1,5%. A faixa entre 20% e 30% registrou perda de 0,8%.

Segundo a gerente da Pnad, Maria Lúcia Vieira: “Aqueles 30% que recebiam os menores rendimentos, todas as classes tiveram redução em relação a 2017 nesse rendimento médio, todo mundo perdeu um pouco”, afirma.

Ela informou que parte desses resultados é consequência da redução de empregos na indústria e na construção civil. A analista da Coordenadoria de Trabalho e Rendimento (Coren) do IBGE, Adriana Araújo Beringuy, afirmou que também houve impacto de pessoal empregado nas áreas de informação, telecomunicação, serviços financeiros e administrativos.

“É um grupamento grande e que historicamente sempre empregou com carteira de trabalho assinada. Essa atividade perdeu bastante população ocupada e na medida em que contratava, era mais sem carteira e por conta própria. Até os setores mais formalizados começaram a absorver trabalhadores com menores rendimentos”, conta Adriana.

A analista destaca ainda o grupo de transportes, armazenagem e o setor de alimentação, mais voltado para a informalidade. “Há uma recuperação da ocupação com mais pessoas trabalhando, de fato, a população ocupada aumenta, só que a expansão vem por meio de atividades que apresentam rendimentos menores”, afirma.

“Continuaram no mercado de trabalho os que estavam recebendo mais. Quem ficava no meio foi mandado embora e recontratado sem carteira e com trabalho informal e rendimentos menores”, concluiu Maria Lúcia.

Índice de Gini
A desigualdade fica evidente também no Índice de Gini de rendimento médio mensal de todos os trabalhos, que mede a concentração de uma distribuição e que varia de zero (perfeita igualdade) a 1 (desigualdade máxima). Em 2018, ficou em 0,509, enquanto no ano anterior tinha sido de 0,501. Segundo a pesquisa, entre 2012 e 2015 houve uma tendência de redução do indicador, passando de 0,508 para 0,494. Mas a partir de 2016, o Gini voltou a aumentar para 0,501, patamar que se manteve em 2017. Nesse caso, a desigualdade pode piorar, porque quem recebia menos passou a receber menos ainda.

Adriana contou que, entre 2012 e 2015, o Brasil registrou aumento na renda do trabalho, além de taxa de desocupação baixa. “Foi a época em que se falava que empregada doméstica estava ficando inviável, porque o salário estava alto. O pessoal de serviços mais básicos e comércio também estava ganhando muito. Teve um ‘boom’ de carteira de trabalho assinada, então, e desconcentrou um pouco da renda desse período, por meio do mercado de trabalho. A partir de 2016, já aparece um cenário diferente”.

Composição
A pesquisa mostrou ainda que a participação na composição do rendimento médio mensal real domiciliar per capita, segundo o tipo de rendimento relacionado a todos os trabalhos, que é o habitualmente recebido pelas pessoas de 14 anos ou mais, representava 73,9% em 2012 e caiu para 72,4% em 2018. Com relação a aposentadorias subiu de 18,1% para 20,5%. Aumentou também no rendimento obtido com aluguel e arrendamento, de 2,4% para 2,5%. Com pensão alimentícia, doação ou mesada de não morador, o índice se manteve em 1,2%. Houve queda também, de 4,4% para 3,3%, em outros tipos de rendimentos, entre eles, as aplicações financeiras,  bolsas de estudo, direitos autorais e a exploração de patentes.

Transferência de renda
Em 2018, 13,7% dos domicílios particulares permanentes recebiam recursos do Programa Bolsa Família. Em 2012, o índice era maior e alcançava 15,9%. Nesse período, o rendimento era de R$ 368, enquanto em 2018 ficou em R$ 341. Adriana diz que não pode afirmar que esse foi o motivo para a redução, mas lembrou que, em 2017, houve um recadastramento dos beneficiários, que resultou em cortes, embora alguns tenham sido retomados mais tarde.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) era pago a 3,6% dos domicílios em 2018, o que significa 1 ponto percentual acima do registrado em 2012, quando o benefício era de R$ 696, chegando a R$ 698 em 2018.

Para a gerente da Pnad, não é possível relacionar o número menor de benefícios ao aumento do trabalho informal. “Não há uma procura maior por trabalho informal. O trabalho informal é o que se consegue. Diante da situação do mercado de trabalho, as pessoas não conseguindo um emprego com carteira e todos os benefícios, acabam trabalhando em atividades informais ou tentando abrir seu próprio negócio”, diz.

Maria Lúcia acrescentou que, ao longo desse período, entre outras atividades do trabalho informal, houve o registro de aumento do serviço de alimentação e de motoristas de aplicativos. “As pessoas precisam pagar as contas, então o emprego informal é o que se vê que pode ser feito naquele momento. A questão da ocupação formal ou informal não tem relação com o recebimento do Bolsa Família, porque pode haver um trabalhador formal que recebe com carteira e a família recebe o programa, porque tem tantos filhos que na hora em que faz a conta ele acaba se tornando alguém que pode receber o programa. O fato de estar ocupado ou não nada tem a ver com receber ou não o programa”, explica.

A gerente chamou a atenção também para o fato de as famílias que recebem esses auxílios terem rendimento muito menor, de fato, do que as famílias em que ninguém recebe o auxílio. “É cerca de um quinto do rendimento, enquanto as famílias que têm, pelo menos, um morador que recebe a Bolsa Família de 300 e poucos reais, as famílias que não recebem, que não têm ninguém recebendo o programa, é de quase R$ 1,5 mil. É uma diferença muito grande, e a gente vê essa diferença até na estrutura do domicílio. No acesso aos serviços e nos bens que têm”, conclui.