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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Amazônia: Eu com isso?

*Por Dom Pedro Carlos Cipollini

No corre-corre do dia a dia, certamente você ouviu falar dos debates que envolvem a Amazônia. Na TV viu os incêndios que a assolam, devorando a floresta. Parece algo tão longe, mas na realidade este assunto diz respeito a todos. Somos e seremos afetados pelo modo como as florestas do mundo estão sendo tratadas. Quero partilhar com você sobre o sínodo Amazônico que está acontecendo em Roma.
“Somos chamados a reconhecer que Deus criou o mundo e o entregou para que cuidemos dele, e não para desfrutá-lo de forma desastrada”, afirma o Dom Pedro Carlos Cipollini | Foto: Reuters/Ueslei Marcelino

O Sínodo Especial dos Bispos para a Amazônia, que iniciou-se dia 6 de outubro, no Vaticano, vai até dia 24. Convocado pelo Papa Francisco, tem como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

O contexto amplo do sínodo é  a grave crise socioambiental de que fala o documento papal, que usa uma expressão de São Francisco de Assis,  intitulado Laudato si (Louvado Seja):  a) A crise climática, ou seja, o aquecimento global pelo efeito estufa; b) a crise ecológica em consequência da degradação, contaminação, depredação e devastação do planeta, em especial na Amazônia; c) e a crescente crise social: pobreza e miséria gritante que atinge grande parte dos seres humanos e, na Amazônia, os indígenas, os ribeirinhos, pequenos agricultores e os que vivem nas periferias das cidades amazônicas.

Mas, a Laudato si’ alerta: “Hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”(cf. n.49). Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos, e simultaneamente, cuidar da natureza. Tudo está interligado.

Já no anúncio do sínodo, em 2017, o Papa indicava seus pontos fundamentais, ou seja, na Amazônia “encontrar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, sobretudo dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de importância fundamental para o nosso planeta”. Portanto, grandes temas: evangelização, novos caminhos, indígenas e floresta. Tudo isto foi sintetizado no tema do sínodo: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Trata-se da missão da Igreja na Amazônia: evangelizar, isto é, anunciar Jesus Cristo e seu Reino de justiça e paz e consequentemente cuidar da “casa comum”, a Terra. No fundo, trata-se de cuidar e defender a vida, tanto de todos os seres humanos, especialmente os indígenas, que ali vivem, quanto da biodiversidade. Jesus disse: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo, 10,10).

Neste contexto, é importante o que o Papa Francisco chama de “ecologia integral”, para dizer que tudo está interligado, os seres humanos, a vida comunitária e social, e a natureza. O que se faz de mal à terra, acaba fazendo mal aos seres humanos e vice-versa. Há necessidade de uma conversão ecológica, inspirada em São Francisco de Assis. Trata-se de propor uma sã relação com a criação como dimensão da conversão integral da pessoa. Mudança no modo de se relacionar com a Natureza.

Isto implica consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formarmos uma comunhão universal. É preciso ter a consciência de que cada criatura reflete algo de Deus, e tem uma mensagem para transmitir, ou a certeza de que Jesus Cristo assumiu em Si mesmo este mundo material e, agora ressuscitado, habita no íntimo de cada ser, envolvendo-o com o seu carinho e penetrando-o com sua luz.

Somos chamados a reconhecer que Deus criou o mundo e o entregou para que cuidemos dele, e não para desfrutá-lo de forma desastrada, sacrificando tudo ao lucro e ao dinheiro, correndo o risco de destruí-lo e prejudicar a humanidade toda.

*Por Dom Pedro Carlos Cipollini é bispo da Diocese de Santo André.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Caso Amazônia: ignorância e ingenuidade diplomática

*Por Gleriani Ferreira

Há poucos dias o Brasil estampou a capa da The Economist, não por algo glorioso. Estivemos lá porque somos incapazes de cuidar da nossa floresta.

Conhecer a Amazônia não significa declinar dos constructos econômicos que pautam o desenvolvimento de uma nação e isentar todas as instituições locais. Por exemplo, na minha tese dentro da Faculdade de Administração da Universidade de São Paulo, pesquisei os gargalos que impedem a competitividade da cadeia produtiva da piscicultura na Amazônia brasileira. O livro Fundo Amazônia cooperação internacional e gestão brasileira, organizado pelo professor Jacques Marcovitch da mesma universidade, contou com mestrandos e doutorandos in loco, descrevendo projetos do Fundo Amazônia com críticas, por exemplo, ao fato do escritório sede estar localizado no Rio de Janeiro, longe da realidade amazônica.

Porém, tais críticas não invalidam o exímio trabalho que algumas ONGs, fiscais e instituições realizam na região. Sim, mais de 20 milhões de pessoas precisam de trabalho e renda para o desenvolvimento local e qual o plano do governo para isso? Não basta criticar, tem que apresentar propostas e trabalhar.

A crítica vazia e desacompanhada de um plano de ação pode convencer os eleitores mais devotos, mas não serve de retórica no desenvolvido ambiente político internacional ao qual este governo não registra nenhuma habilidade para transitar.

Fosse diferente e não teria renegado a verba destinada ao Fundo Amazônia da pior maneira possível: ofendendo a Alemanha. Wilson Lima, governador do Amazonas já reclama dessa perda e outros virão na sequência. Pois, eles sabem que os recursos doados ajudam, inclusive, a sustentar a estrutura do Corpo de Bombeiros de estados que lutam pelo combate aos incêndios na Amazônia.

A crítica é salutar dentro de uma democracia e podemos sonhar com a independência financeira ao desprezar recursos estrangeiros. Mas criamos um ambiente hostil com a Europa e pedimos apoio financeiro à Israel. Qual era a estratégia do governo? O que ganhamos com isso?

Nossa ineficiência é escancarada ao mundo porque a região que abriga a maior riqueza natural do planeta, registra os piores índices de desenvolvimento humano. Isso porque na Amazônia não existe nenhum município com IDH-M alto ou muito alto.

Mais do que críticas às instituições e declarações que desautorizam o IBAMA e criam um cenário benéfico para a ilegalidade, o Brasil carece de um plano de ação com mecanismos claros para o monitoramento das ONGs, o uso dos recursos e a criação de cadeias produtivas completas e competitivas lá na Amazônia.

A ingenuidade e o completo despreparo político agora rendem retrocesso nas negociações comerciais. Claro, qual é a novidade? Apenas um governo despreparado desconhece as bases em que são formados os acordos diplomáticos e políticos. Bastasse um mínimo de diplomacia e ética para o Brasil encontrar o caminho do desenvolvimento. No entanto, estamos mais distantes do que nunca desse rumo. A cada dia assistimos a novos episódios desastrosos de improviso, ignorância e hostilidade. Tudo o que não precisamos.

*Gleriani Ferreira é professora de Sustentabilidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville.

terça-feira, 22 de março de 2016

Neocolonialismo ecológico é ameaça global

*Por Reinaldo Dias, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Campinas. Doutor em Ciências Sociais e mestre em Ciência Política. É especialista em Ciências Ambientais. 
  
Um dos maiores desafios para a implementação, a partir deste ano, dos 17 objetivos do Desenvolvimento Sustentável (OS) é a permanência de relação perversa entre os países desenvolvidos (Norte) e os países em desenvolvimento (Sul) que pode ser caracterizada como de neocolonialismo ecológico. 

Historicamente os países do hemisfério norte exploram de forma predatória a natureza dos países do sul, por meio de políticas econômicas agressivas ao meio ambiente. 

Nessas relações de exploração, a natureza sempre foi a derrotada; perde quando os recursos naturais são extraídos de forma abusiva e quando recebe os resíduos que a sociedade de consumo produz em grande quantidade. Florestas são transformadas em cinzas para dar lugar a monoculturas e à pecuária.

É exemplo emblemático atual o que ocorre na Indonésia, onde as madeireiras estão destruindo as florestas para exportar madeira para os países em desenvolvimento. No local, plantam Palma para produção de óleo, que por ironia ainda rotulam o produto gerado – óleo de palma – como combustível ecológico (biodiesel). Na Amazônia são destruídas grandes áreas de floresta para a criação de pastagens e, no cerrado do Brasil central, a destruição ocorre para a produção de soja e outras commodities para exportação. 

"Os países do norte exploram de forma predatória a natureza dos países do sul", afirma o especialista
A expressão concreta dessa nova forma de neocolonialismo é a dívida ecológica que pode ser entendida como a responsabilidade que tem os países industrializados pela destruição gradativa do planeta como resultado de seu modo de produção e consumo, característico de um modelo de desenvolvimento, fortalecido pela globalização e que ameaça a integridade dos ecossistemas e da biodiversidade. Inclusive a da espécie humana. 

O nível de vida que ostentam os países desenvolvidos se deve ao imenso fluxo de bens materiais naturais e exploração da mão-de-obra dos países em desenvolvimento, acrescido dos danos sociais e ambientais que a extração destes bens provoca. É um modelo que, na realidade, é subsidiado pelos países do Sul.

Atualmente, os mecanismos de exploração dos países mais ricos, portanto o aumento da dívida ecológica, se aperfeiçoaram, utilizando, principalmente, a atividade das corporações transnacionais como ponta de lança dessa ação predatória.

Os novos mecanismos de dominação e consequentemente de geração de mais dívida ecológica são, entre outros: investimentos vinculados a posse de áreas naturais, programas de privatização de áreas sensíveis do ponto de vista social e ambiental, acordos de propriedade intelectual que não levam em consideração a apropriação histórica de conhecimentos pelas comunidades (ribeirinhas, indígenas, caboclos, extrativistas) e a biopirataria.

Além disso, há hoje um fluxo de minerais, recursos energéticos, madeira, produtos da agricultura e da pesca dos países em desenvolvimento para os países desenvolvidos muito superior ao fluxo de recursos naturais em sentido contrário. Isso pode ser descrito como um aumento da base natural de sustentação das economias industrializadas em detrimento das populações dos países em desenvolvimento afetadas.

Consequentemente, a pegada ecológica dos países ricos sobre a biosfera supera em muito o território que ocupam, não somente pelo volume e recursos que extraem dos outros territórios, mas, também pelos resíduos tóxicos que lhes deixam ou lhes exportam (muitas vezes ilegalmente), pelos nutrientes naturais e a água que levam os produtos agrícolas e pecuários importados pelos países do Norte e pela deterioração ambiental que provoca a obtenção desses recursos exportados. Os países desenvolvidos, além disso, fazem uso dos sumidouros dos gases de efeito estufa (florestas, por exemplo) em uma proporção muito maior que lhes corresponderia por sua população.

O problema dessa relação é agravado pela atribuição injusta de preços pelo atual sistema econômico aos distintos fatores produtivos. Enquanto os países em desenvolvimento se especializam nos processos de extração e elaboração fisicamente mais caros e degradantes e economicamente menos valorizados, os países do Norte o fazem nas fases de menor investimento e que são mais valorizadas do processo econômico e na gestão comercial e financeira. Ao se valorizar pouco os recursos naturais e os serviços que prestam os ecossistemas, quem vive de sua venda é discriminado e fica mais pobre, e além do mais não há incentivo econômico para reduzir seu consumo.

Os países ricos, por sua parte, acumulam dinheiro pela venda de recursos supervalorizados (que proporcionam maior valor agregado), e ao fazê-lo acumulam uma capacidade aquisitiva desproporcional que os incentiva a consumir produtos e serviços naturais sem nenhuma consideração de sustentabilidade. Uma paralisante dívida externa (monetária) se mantém entre os países endividados e os empurra a explorar ainda mais intensamente seu meio natural para poder pagá-la.