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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Mestre chinês de kung fu visita academia em Santo André

Da Redação 

O mês de dezembro é especial para os colaboradores e alunos da academia Li Fei Lin, em Santo André. Isso porque o local recebe a visita do mestre chinês e patrono da academia, o próprio Li Fei Lin, que veio ao Brasil para temporada de 30 dias a convite do proprietário da escola marcial, Luis Souza, conhecido como Shifu Luiz.

Primeiro contato entre mestre e alunos ocorreu na segunda-feira (3) | Foto: Divulgação 
A academia é especializada no ensino do kung fu tradicional e segue os conceitos transmitidos pelo mestre chinês. Li Fei Lin é herdeiro legítimo da linhagem do Taiji Tang Lang Quan e faz parte da 8ª geração da arte; Shifu Luiz, por sua vez, é discípulo de Li Fei Lin e é considerado membro da 9ª geração – Shifu iniciou na arte marcial aos 12 anos e atingiu esse posto após longos períodos de treinamento na China, junto ao patrono.
Shimu Cynthia Homa, mestre
Li Fei Lin e Shifu Luiz| Foto: Divulgação

O objetivo da visita é que os alunos da academia conheçam o mestre pessoalmente e adquiram os conhecimentos, tanto técnicos, quanto aqueles que envolvem princípios de vida. O primeiro contato entre alunos e mestre ocorreu na última segunda-feira (3) e a interação entre eles foi garantida pela presença de um intérprete.
A programação continua para os alunos da academia: neste domingo (8) pela manhã, o mestre ministrará palestra para os alunos graduados entre a faixa branca e verde; no período da tarde, os graduados a partir da faixa azul terão a oportunidade de participar de workshop com Li Fei Lin.

A academia Li Fei Lin fica na Rua Oratório, 1429, Parque das Nações, em Santo André. Tel.: 3439-9333 | Site: www.lifeilin.com.br.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Educação, pesquisa e reestruturação social e política são medidas para prevenir a violência

Redação

Pensar em uma sociedade sem conflitos e violência pode parecer um objetivo inalcançável. Mas alguns estudos e pesquisas buscam exemplos e soluções para minimizar essa dura realidade que atinge todos os países e continentes, cada qual com sua peculiaridade. Foi no caminho de encontrar respostas para os conflitos que ameaçam a sociedade, assim como soluções que possam contribuir para a prevenção da violência, que aconteceu o 8º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação, em 30 e 31 de outubro, na capital paulista sob a temática central “Radicalization and Violence: Perspectives and Prevention Approaches”.

O 8º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação ocorreu em 30 e 31 de outubro, na capital paulista | Foto: Felipe Mairowski

Com organização do Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH São Paulo) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o evento, que sempre conta com a presença de especialistas dos dois países, recebeu mais de 115 participantes. Além de terem a oportunidade de conhecer as mais recentes pesquisas sobre o assunto, puderam dialogar com os palestrantes levando as temáticas abordadas a um alto nível.

A abertura do Diálogo 2019 contou com a presença do presidente da Fapesp, Marco Antonio Zago;  do diretor designado do DWIH São Paulo e do escritório regional do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) no Rio de Janeiro, Jochen Hellmann; e do cônsul-geral da Alemanha em São Paulo, Axel Zeidler. “Nossa parceria com a Fapesp é uma importante plataforma de cooperação e conhecimento que conecta e promove a ciência, inovação e pesquisa Brasil-Alemanha. Dessa parceria nasceu o Diálogo, que possibilita uma interação internacional entre os cientistas e pesquisadores dos dois países, contribuindo para o progresso da ciência mundial”, declara Hellmann.

Já Zago, por sua vez, pontuou que o Diálogo representa uma oportunidade para que pesquisadores dos dois países se encontrem, troquem ideias e façam da ciência e da inovação uma plataforma de colaboração e progresso.

Para Zeidler, Brasil e Alemanha estão sempre em sintonia colocando em pauta temas interessantes e importantes: “Essa edição do evento trouxe uma temática totalmente atual e que precisa ser discutida em seu caráter social, político e cultural. Esse espírito de cooperação é a base para que nossos pesquisadores, universidades e instituições possam juntos gerar resultados e inovações”, declara.

Identificando a radicalização de conflitos e a violência, pela primeira vez no Brasil, o palestrante Julian Junk, do Peace Research Institute Frankfurt (HSFK), falou sobre “Radicalization and Violence – Insights from Germany and Europe”. Junk reforçou que essa temática não se trata de um assunto novo, nem mesmo de uma nova ameaça, mas a prevenção contra o extremismo deve ser sustentável e abrangente. Para ele, a disputa de visões e opiniões nem sempre representa uma ameaça, já que a radicalização pode ser também uma alavanca importante de progresso social.

Porém, o problema surge quando a intolerância e o ódio levam ao uso da violência para alcançar objetivos culturais, sociais e políticos. “Se a radicalização resulta em violência, sua atribuição é completamente destrutiva para a sociedade. Mas, se ela acontece no sentido de possibilitar algo novo, sem implicações violentas, aí a radicalização pode aparecer como uma ferramenta de inovação e oportunidades”, explica Junk. Em sua apresentação, o palestrante pontuou ainda insights sobre a violência e a radicalização de conflitos, tanto na sua forma individual quanto em grupos, e em seus diferentes contextos e ambientes (on-line e off-line). “Essa discussão chegou a um novo patamar e dimensão, ou seja, não está apenas no âmbito social e político em si, mas atingiu rapidamente o cenário virtual”.

Sob as lentes da atualidade sócio-política do Brasil, Esther Solano, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), contribuiu com o tema “Understanding socio-political hate in Brazil”. Construído em uma sociedade desigual, o Brasil vivencia o que ela denomina “Tsunami Bolsonarista”. Ou seja, um fenômeno que chegou com uma força descontrolada e aguçando momentos de ódio e violência no país, intensificados com o ambiente virtual. “As redes sociais amplificam esse cenário, surgindo como uma plataforma usada para atrair e recrutar seguidores para movimentos e ações que muitas vezes estão enraizadas no ódio”.

A professora titular do departamento de antropologia da Universidade de São Paulo (USP), Lilia Schwarcz, foi uma das palestrantes do segundo dia do evento com o tema “Past and present: violence and authoritarianism in Brazil”. Fazendo um panorama sobre a violência e o autoritarismo no Brasil, Lilia relatou um País mergulhado no preconceito, desigualdade social e a falta de oportunidades e de educação.

“Difícil acreditar no Estado brasileiro. Apesar de vivermos em uma democracia há mais de 30 anos, na verdade o cenário não é bem assim. A democracia tende a buscar por melhorias para a sociedade e, infelizmente, as cenas de violência e autoritarismo que vivenciamos no Brasil não demonstram isso. Aliás, se olharmos por essa lente, o Brasil nunca deixou de ser um país que reflete um autoritarismo, que desencadeia em conflitos, violência e mortes. Se os responsáveis pela política trabalhassem de mãos dadas com os pesquisadores, haveria uma chance real de conseguirmos enfrentar e evitar tantas mortes desnecessárias”, afirma a professora.

A prevenção da violência e da radicalização de conflitos, com exemplos e casos de sucesso da Alemanha, que possui uma longa tradição em estudos e pesquisas sobre a paz e conflitos, foi foco da apresentação de Thomas Fischer, da Universidade Católica de Eichstätt-Ingolstadt (KU), também palestrante do segundo dia. “Na Alemanha há uma tendência em prol da paz e da prevenção de conflitos, com apoio de universidades e instituições que colaboram com pesquisas e iniciativas. Nesse âmbito, o Conselho Alemão de Ciências e Humanidades (Wissenschaftsrat) colabora com insights direcionando pesquisas, qualificações, ensino e apoio a jovens cientistas, além de uma plataforma de networking e colaboração”, explicou Fischer.

No âmbito cultural e educacional, Hans-Christian Jasch, da Casa da Conferência do Wannsee, trouxe as atividades desenvolvidas pela sua instituição, que colabora com a preservação da memória em prol da conexão com o presente. “Manter a memória viva, com base no conhecimento e na história é, de certa forma, o espaço para a educação. Em particular, a Alemanha desenvolve políticas que tratam do passado, da história pública, da cultura da memória, e da pedagogia da paz. Esses fatores contribuem na troca de experiências e conhecimentos, além de nos conectar da melhor forma com o presente”.

Sobre o papel das prisões e da violência policial, que constroem redes criminosas no Brasil, Camila Nunes Dias, da Universidade Federal do ABC  (UFABC), fez sua apresentação baseada nos resultados de uma série de pesquisas realizadas nos últimos 10 anos sobre a expansão da divisão criminosa PCC nas prisões de São Paulo, assim como seus efeitos nas regiões fronteiriças, especialmente na economia de drogas ilícita. “Grupos criminosos prisionais surgiram em todos os estados brasileiros e interferem diretamente na dinâmica da violência e do crime no país. Entre esses grupos, o PCC é, sem dúvida, o mais organizado e estruturado, sendo um dos principais atores da economia criminal da América do Sul. Nesse sentido, a prisão constitui um espaço de produção e reprodução para a articulação de redes criminosas”.

Seguindo pelo contexto do sistema presidiário, Markus-Michael Müller, da Freie Universität Berlin, que contribuiu com o tema “Institutional Radicalization: How tough on crime policies can strengthen Latin American street gangs”, acredita que a reflexão sobre as causas da radicalização e da violência na América Latina deve abordar também o papel das prisões como locais de processos de radicalização dobrada. Para ele, as prisões da região são consideradas negligenciadas, mal financiadas e sobrecarregadas. “Um dos aspectos do cenário de insegurança da América Latina, em termos acadêmicos e políticos, tem sido o sistema penitenciário da região. Grupos criminosos exploram essa situação, transformando as prisões em locais ideais para recrutar e radicalizar presos comuns, aproveitando-se de sua socialização em uma cultura específica de violência, como no caso de gangues de rua”.

De olho na prevenção da violência, Müller acredita que medidas preventivas poderiam neutralizar essa radicalização mútua (política e criminal) e seriam um importante ponto de partida para quebrar esse ciclo vicioso e melhorar, de maneira sustentável, a situação da segurança na América Latina. Para a antropóloga Schwarcz, a educação é a estratégia base no que se diz respeito a prevenção da violência, em especial no Brasil. “Acredito que só a educação tem a potencialidade para travar o gatilho da intolerância e da desigualdade existente entre nós”, complementou.

Alba Zaluar, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), também aposta na educação, em medidas restritivas de segurança e em projetos esportivos, artísticos e culturais que possam dar alternativas de pertencimento e renda para os jovens. Para ela, há uma necessidade de mudanças no sistema escolar para que nem tantos jovens abandonem a escola nos ensinos fundamental e médio.

“Essa mudança é crucial para abrir as oportunidades no ensino técnico, universitário e, consequentemente, no mercado de trabalho com mais alternativas e melhores salários. Além da investigação, controle e restrições ao tráfico de armas, precisa-se, portanto, de um grande investimento público na formação dos jovens. Esta formação deve retomar o processo civilizatório, que sofreu um grande retrocesso nas últimas décadas. Além disso, a prioridade maior deveria ser a reforma urgente e absolutamente necessária das nossas forças policiais”, afirmou Zaluar que participou do primeiro debate como palestrante com o tema “Vicious circles in public security and the increase of crime in Brazil”.

Além de Thomas Fischer, os moderadores dos painéis Sérgio Adorno e Vitor Blotta, ambos do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, e Stefan Kroll, do Peace Research Institute Frankfurt (HSFK), que presidiu as sessões de keynotes, formaram o comitê científico do Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação 2019.

Ao fim dos dois dias de evento, aconteceram rápidas sessões de perguntas e respostas com representantes de agências de fomento. No dia 30, representantes do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG) e da Fapesp falaram sobre programas de apoio à cooperação científica. No dia 31, as mesmas agências, além da Fundação Alexander von Humboldt, informaram sobre bolsas individuais.

O evento contou com a parceria do DAAD, Ministério das Relações Externas da Alemanha, USP (Universidade de São Paulo), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Unesp (Universidade Estadual Paulista). O evento teve apoio da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Fundação Konrad Adenauer, Fundação Heinrich Böll Rio de Janeiro, Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha (VDI-Brasil), Goethe-Institut e Mecila (Maria Sibylla Merian International Centre for Advanced Studies in the Humanities and Social Sciences Conviviality-Inequality in Latin America).

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Extrema pobreza atinge 13,5 milhões de pessoas no Brasil

Redação

Em 2018, o Brasil tinha 13,5 milhões pessoas com renda mensal per capta inferior a R$ 145, ou U$S 1,9 por dia, critério adotado pelo Banco Mundial para identificar a condição de extrema pobreza. Esse número é equivalente à população de Bolívia, Bélgica, Cuba, Grécia e Portugal. Embora o percentual tenha ficado estável em relação a 2017, subiu de 5,8%, em 2012, para 6,5% em 2018, um recorde nos últimos anos anos. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) divulgada nesta quarta-feira (6) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pobreza atinge sobretudo a população preta ou parda, que representa 72,7% dos pobres, em números absolutos 38,1 milhões de pessoas | Foto: Rita Martins/Ag. IBGE Notícias
O gerente do estudo, André Simões, ressalta que são necessárias políticas públicas para combater a extrema pobreza, pois ela atinge um grupo mais vulnerável e com menos condições de ingressar no mercado de trabalho.

“Esse grupo necessita de cuidados maiores que seriam, por exemplo, políticas públicas de transferência de renda e de dinamização do mercado de trabalho. É fundamental que as pessoas tenham acesso aos programas sociais e que tenham condições de se inserir no mercado de trabalho para terem acesso a uma renda que as tirem da situação de extrema pobreza”, reforçou Simões.

O valor do indicador de pobreza do Bolsa Família, R$ 89, é, inclusive, inferior ao parâmetro global de R$ 145, o que mostra que o benefício não é suficiente para tirar as pessoas da extrema pobreza.
O pesquisador do IBGE, Leonardo Athias, explicou que, em 2011, o valor de R$ 70 para o Bolsa Família era compatível com o valor global da época, de US$ 1,25 por dia. “Por falta de correções monetárias, hoje o valor de R$ 89 é abaixo do valor global indicado pelo Banco Mundial”, destaca.

A Síntese de Indicadores Sociais também apontou que, embora um milhão de pessoas tenham deixado a linha de pobreza – rendimento diário inferior a US$ 5,5, medida adotada pelo Banco Mundial para identificar a pobreza em países em desenvolvimento como Brasil – um quarto da população brasileira, ou 52,5 milhões de pessoas, ainda vivia com menos de R$ 420 per capta por mês. O índice caiu de 26,5%, em 2017, para 25,3% em 2018, porém, o percentual está longe do alcançado em 2014, o melhor ano da série, que registrou 22,8%.

O analista do IBGE, Pedro Rocha de Moraes, avalia os dados. “Em 2012, foi registrado o maior nível da série para a pobreza, 26,5%, seguido de queda de 4 p.p. em 2014. A partir de 2015, com a crise econômica e política e a redução do mercado de trabalho, os percentuais de pobreza passaram a subir com pequena queda em 2018, que não chega a ser uma mudança de tendência”, avalia.

 A pobreza atinge sobretudo a população preta ou parda, que representa 72,7% dos pobres, em números absolutos 38,1 milhões de pessoas. E as mulheres pretas ou pardas compõem o maior contingente, 27,2 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza.

Em 2018, a redução da pobreza se deu principalmente no Sudeste, que registrou menos 714 mil pessoas nessa condição, sobretudo no estado de São Paulo (menos 623 mil). Quase metade (47%) dos brasileiros abaixo da linha de pobreza em 2018 estava na região Nordeste. O Maranhão foi o estado com maior percentual de pessoas com rendimento abaixo da linha de pobreza, (53,0%). Já Santa Catarina, que também se mostrou o estado menos desigual, apresentou o menor percentual de pobres. Todos os estados das regiões Norte e Nordeste apresentaram indicadores de pobreza acima da média nacional.

Desigualdade aumenta
Entre 2012 e 2014, o grupo dos 40% com menores rendimentos apresentou aumento mais expressivo do rendimento médio domiciliar per capita, passando de R$ 329 para R$ 370. A partir de 2015, o rendimento médio deste grupo caiu para R$ 339. Já o grupo dos 10% com maiores rendimentos sofreu uma modesta redução do rendimento médio entre 2012 e 2015 (de R$ 5.408 para R$ 5.373), mas passou a subir nos anos seguintes, resultando, ao final de 2018, em um rendimento médio de R$ 5.764, o maior valor da série.

“Em 2018, houve uma melhora nos indicadores do trabalho, embora tenha sido mais relevante no trabalho informal. O valor dos rendimentos cresceu para toda a população, só que foi maior para os 10% com maiores rendimentos que se apropriaram de uma parcela maior do que os 40% com menores rendimentos, ampliando a desigualdade”, diz Moraes.

Rendimento domiciliar per capita médio de pretos, ou pardos, é metade do recebido pelos brancos
Em 2018, pessoas de cor ou raça preta ou parda tiveram rendimento médio domiciliar per capita de R$ 934, quase metade do rendimento de R$ 1.846 das pessoas de cor ou raça branca. Entre 2012 e 2018, houve ligeira redução dessa diferença, explicada por um aumento de 9,5% no rendimento médio de pretos ou pardos, ante um aumento de 8,2% do rendimento médio dos brancos. Mas tal redução não foi capaz de superar a histórica desigualdade de rendimentos, em que brancos ganham o dobro de pretos e pardos.

Em relação às condições de moradia, 56,2% (29,5 milhões) da população abaixo da linha da pobreza não têm acesso a esgotamento sanitário; 25,8% (13,5 milhões) não são atendidos com abastecimento de água por rede; e 21,1% (11,1 milhões) não têm coleta de lixo.

Tanto em relação às inadequações habitacionais como em relação à ausência de saneamento, as proporções registradas são maiores entre pretos e pardos do que entre brancos. Entre pretos e pardos, 42,8% (49,7 milhões) não são atendidos com coleta de esgoto; 17,9% (20,7 milhões), não têm abastecimento de água por rede; e 12,5% (14,5 milhões) não têm acesso a coleta de lixo.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Evento “Dia pela Democracia” tem debate sobre política na Avenida Paulista

Redação

Neste domingo (15), das 13h às 18h, acontecerá na Avenida Paulista (em frente ao Masp),
em São Paulo, o Dia pela Democracia, evento que reunirá cidadãos, ONGs, ativistas, artistas e acadêmicos para promover conversas e debates - fora da lógica das redes sociais - sobre a atual conjuntura político-democrática do País.

Dia pela Democracia acontecerá em frente ao Masp | Foto: Arquivo/ABr

Promovido pelo Pacto pela Democracia - coalizão formada por mais de 120 organizações da sociedade civil. Com o mote "escutar, discordar, dialogar", o Dia pela Democracia é um convite aos cidadãos para que se encontrem nas ruas e tenham oportunidade de conversar de forma qualificada e desarmada sobre o que está em jogo, hoje, na democracia brasileira.

A iniciativa visa levar à Paulista Aberta - local de grande circulação e marcado pela diversidade de seus frequentadores - um espaço propício ao encontro e ao diálogo, entre pessoas com identidades e visões diferentes, no qual seja possível ultrapassar as barreiras ideológicas, que costumam caracterizar as interações que acontecem por meio das mídias sociais.

O evento marca ainda o Dia Internacional da Democracia, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2007, como oportunidade para se avaliar a qualidade das construções democráticas ao redor do mundo.

Além de proporcionar discussões, compreensões e perspectivas múltiplas sobre acontecimentos recentes da atualidade política, o Dia pela Democracia será um ato pelo compromisso com a convivência democrática e o Estado de Direito no Brasil.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Educação: confira personalidades essenciais para a evolução da área no Brasil

Redação

A educação como conhecemos hoje é resultado de diversas mudanças e conquistas ao longo da história. O estabelecimento de metas para o ensino e a construção de universidades e centros de pesquisa, por exemplo, só foram possíveis graças ao esforço de muitas pessoas, a maioria delas pouco destacadas na história, conforme comenta o diretor do Sistema de Ensino pH, Cláudio Falcão.

Figura 1:  Da esquerda para a direita, Maria Nilde Mascellani, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Nísia Floresta e Fernando de Azevedo | Imagens: divulgação 

"Esses personagens foram fundamentais para que a educação do país se modernizasse. É claro que ainda temos um longo caminho a seguir, mas se chegamos até aqui, foi porque eles não desistiram e enxergaram na educação o melhor caminho para transformar o País", comenta Falcão.

Nos séculos XVIII e XIX, até meados do século XX, por exemplo, apenas homens de famílias nobres ou ricas poderiam ter acesso à educação básica, sendo que, para isso, deveriam recorrer às escolas religiosas ou aos colégios que se encontravam nas grandes cidades.

Poucos são, como Paulo Freire, os nomes conhecidos por seus feitos relacionados ao desenvolvimento da educação brasileira. Pensando neste contexto, Falcão e a equipe do Sistema de Ensino pH selecionaram cinco personagens que tiveram grande contribuição para o desenvolvimento de nosso sistema educacional, mas que não são tão conhecidos pela maioria das pessoas.

Maria Nilde Mascellani
Maria Nilde (1931 – 1999) foi uma educadora brasileira responsável pela criação e coordenação do Serviço de Ensino Vocacional (S.E.V.) no estado de São Paulo. Durante a década de 1960, a organização estimulava a autonomia dos alunos em sala de aula, e levava em conta o contexto no qual eles estavam inseridos.

Uma das medidas inéditas na época foi instituir a autoavaliação e substituir notas por conceitos, que depois eram discutidos entre os professores nos Conselhos de Classe. Também foi uma das fundadoras da equipe RENOV, um centro de suporte de projetos, pesquisas e planejamento educacional baseado na defesa dos direitos humanos. Maria foi perseguida e presa durante a ditadura militar. Ao ser libertada, passou a lecionar na Faculdade de Psicologia da PUC-SP, onde criou um centro educacional.     
 
Anísio Teixeira
Anísio Teixeira (1900-1971) foi um dos primeiros a lutar pela existência de escolas públicas, desde o maternal até o ensino superior. Segundo o jurista baiano, a educação não era um privilégio e, portanto, deveria ser gratuita para toda a população. Foi um dos 26 nomes a assinar o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, que defendia o ensino integral, público, laico, obrigatório e municipalizado. O pensador lutou para que a escola se tornasse um local que disponibilizasse também o aprendizado de ideais e senso crítico. Hoje, ele dá nome ao Inep, autarquia responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro (1922 - 1997) foi um antropólogo, escritor e político brasileiro que lutou pelo ensino integral gratuito e, principalmente, pela causa indígena. No estado do Rio de Janeiro, implantou os Centros Integrados de Ensino Público (CIEP), com foco em assistência integral a crianças, além de atividades recreativas e culturais. Como Ministro da Educação do Brasil (1962 – 1963), executou diversas e profundas reformas no sistema educacional, como medidas para intensificar a escolaridade no país e ampliar as matricular em escolas, além de criar o Fundo Nacional de Educação, cujos recursos seriam divididos entre os ensinos primário, médio e superior. Outros de seus projetos foram o Parque Indígena do Xingu e o Memorial da América Latina, além de ter dado origem a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB).

Nísia Floresta (pseudônimo de Dionísia Gonçalves)
Nísia Floresta (1810 – 1885) foi uma das primeiras mulheres a escrever para jornais, logo no início da imprensa brasileira, além de ser pioneira na luta pela educação das mulheres. Fundou o Colégio Augusto, no Rio de Janeiro, direcionado para meninas e que, durante 17 anos, propôs o ensino de ciências, línguas, história e educação física, assuntos que, na época, eram direcionados apenas para homens. Seu colégio se destacou por oferecer educação de qualidade às mulheres em uma época na qual os colégios mais bem avaliados da Corte não tinham espaço para meninas, e o sistema vigente julgava as ciências como conhecimentos inúteis às mulheres.

Fernando de Azevedo
Fernando de Azevedo (1984 - 1974) foi responsável pela elaboração do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, que defendia a reforma brusca do ensino. Segundo o documento, as escolas deveriam "servir aos interesses do indivíduo, e que se funda sobre o princípio da vinculação da escola com o meio social". Realizou diversas reformas no Código de Educação, além de ter fundado a Biblioteca Pedagógica Brasileira (BPB) e ter sido presidente da Associação Brasileira de Educação e da III Conferência Mundial de Educação.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Desemprego atinge 13,2 milhões de brasileiros

Redação

O Brasil registrou uma taxa de desemprego de 12,5%, no trimestre encerrado em abril deste ano. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), divulgada nesta sexta-feira (31) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa é superior à registrada no trimestre encerrado em janeiro deste ano (12%), mas inferior à observada no trimestre encerrado em abril de 2018 (12,9%). A população desocupada ficou em 13,2 milhões.

Milhares de pessoas formaram filas no Anhangabaú, em março, em mutirão de emprego promovido por sindicatos | Foto: reprodução

O número de desempregados representa 4,4% a mais do que no trimestre encerrado em janeiro (mais 552 mil pessoas), mas estatisticamente estável, ante o trimestre encerrado em abril de 2018 (13,4 milhões de pessoas).

Segundo o IBGE, a população ocupada, de 92,4 milhões de pessoas, mostrou estabilidade na comparação com o trimestre anterior (92,3 milhões de pessoas) e cresceu 2,1% (mais 1,94 milhão) na comparação com o trimestre encerrado em abril de 2018 (90,4 milhões de pessoas).

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Manifestações a favor do governo Bolsonaro e o ganho de capital político

*Por Rodrigo Augusto Prando

As manifestações favoráveis ao governo Bolsonaro, no domingo (26), trouxeram um saldo positivo, de ganho de capital político. Não foi estrondosa como gostaria o Planalto e os bolsonaristas, mas não foi pífia e esvaziada como desejariam os opositores do governo. Alguns aspectos merecem destaques.

Atos em apoio ao governo ocorrem em diversas cidades do país | Foto: Reuters/Nacho Doce

Em primeiro lugar, a manifestação não pode ser tomada como uma fotografia e sim como parte de um filme. Se a foto de domingo é boa; o filme não é nada positivo para o atual governo. Em recente pesquisa, a curva de desaprovação de Bolsonaro já superou a de sua aprovação e, somado a isso, persiste a crise econômica, desemprego, subida do dólar e a ausência de uma articulação política com o Congresso Nacional (deputados e senadores). Assim, esse ganho de capital político adicionado a Bolsonaro pode ser efêmero, especialmente pela lógica de manter uma ação política em que o ato de governar é o de escolher inimigos e atacá-los (a esquerda, a mídia, as corporações, a velha política, as Ciências Sociais, a universidade, etc.).

Em segundo lugar, a manifestação foi legítima, como foi a contrária ao governo; pois, por uma questão de lógica e honestidade, ou todos são idiotas manobráveis ou todos estão no seu direito à livre e pacífica manifestação. Tendo a crer na segunda opção. Bolsonaro e os bolsonaristas recuaram de um ataque direto ao Congresso e ao STF e buscaram pautar as ruas no apoio à reforma da previdência e ao pacote anticrime de Moro. Ponto para o governo. Contudo, persiste, às vezes latente e às vezes claramente, um viés autocrático de ataque às instituições do Estado Democrático e de Direito. Para muitos, tenho certeza, seria melhor governar sem deputados, senadores e sem os juízes do STF. Seria, mas não é possível.

Em nossa Constituição, claro está, há uma democracia representativa e com divisão do Poder (Executivo, Legislativo e Judiciário) numa relação de freios e contrapesos. O poder não é absoluto e, dividido, deve conviver harmoniosamente com os outros. Desta forma, o desejo de atacar os outros poderes é barrado pela Constituição e, também, por conta de que se o presidente governa assentado na legitimidade do voto, os membros do Legislativo gozam da mesma prerrogativa legal. Outro ponto positivo para Bolsonaro foi demonstrar que a força e prestígio que possui nas redes sociais, junto aos bolsonaristas, pode ser verificada nas ruas, na realidade. Contudo, o afastamento – no bojo da direita conservadora – do MBL, do Vem Pra Rua e de nomes como Kim Kataguiri, Janaína Paschoal, Lobão, entre outros, denota uma clara derrota para o universo bolsonarista e isso fica claro com os ataques que sofreram nas redes sociais e nas ruas, no domingo.

A questão, novamente, é o que fará o governo com esse ganho de capital político? E como reagirão os atores políticos: deputados e senadores? O governo buscará, outra vez, dialogar e negociar ou insistirá que ele representa a "nova política" (pura, imaculada) numa guerra contra a "velha política" (transbordando vícios, conchavos e corrupção)? E os deputados e senadores – com seus respectivos presidentes, Maia e Alcolumbre – sentir-se-ão amedrontados e enfraquecidos pelas vozes das ruas ou, ao contrário, partirão para o ataque a um governo de articulação política precocemente combalida? São muitas as questões e as respostas dependerão das ações concretas destes atores. Obviamente, seria bom para o país o diálogo, a negociação e a construção de pautas minimamente consensuais: as reformas, retomada do emprego e diminuição da violência, por exemplo. Esse filme, contudo, está apenas começando...

*Rodrigo Augusto Prando é cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É bacharel e licenciado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia, pela Unesp/FCLAr.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A República do Maniqueísmo

*Por Ana Paula Caodaglio

No âmbito da Operação Lava Jato e seus desdobramentos, muitas ações criminais são movidas pelo Ministério Público tendo como base o tráfico de influência de autoridades em benefício próprio, de grupos ou partidos. Trata-se, de fato, de uma prática a ser combatida, por meio de rigorosa investigação e sanção legal dos envolvidos, se comprovados o dolo e o ônus ao erário.

No entanto, o tema merece profunda reflexão, sendo necessária detida análise sobre as diversas facetas da "influência " e os limites nos quais ela se configura como crime ou simplesmente uma prática comum, também a ser debatida e questionada, no universo do setor público, na interação entre os Três Poderes e destes com a iniciativa privada e os múltiplos segmentos da sociedade. Lobby é influência? Sim! É crime? Sim, se houver propina ou quaisquer ganhos materiais ilícitos. É ético? Nem sempre!

Ao debater a questão no evento Desburocratização do Poder Judiciário, promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), dia 28 de novembro, em Brasília, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, manifestou-se contrário à regulamentação do lobby, entendendo que "só vai criar mais burocracia e excluir aqueles mais pobres do acesso ao Estado e aos serviços públicos. O Estado tem de interagir com a sociedade de maneira direta e transparente".

Contudo, a ausência de regras e parâmetros claros para a prática de lobby e/ou uso da "influência" vêm deixando o País em situações no mínimo delicadas. A experiência mostra que, na prática, a interação direta entre Estado e Sociedade torna-se ambígua e abre espaço para questionamentos.

Nesse contexto, há outra questão, esta mais recente e de grande impacto na mídia, nas redes sociais e na opinião pública: as gestões e negociações relativas à aprovação do reajuste dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) no Congresso Nacional e à sanção do presidente da República podem ser caracterizadas como "influência"? Se foram, poderiam ser investigadas no contexto de um inquérito policial, à medida que os ônus para os cofres públicos serão imensos, considerando o efeito em cascata em toda a administração, pois os vencimentos da Corte são referências salariais? Foram éticas, levando-se em conta, principalmente, a grave crise fiscal do Estado?

Outro exemplo de "influência", este recorrente no Brasil, refere-se às negociações entre Poder Executivo e o Legislativo, voltadas a garantir que o primeiro tenha maioria no Parlamento (isso ocorre nos municípios, nos estados e na União). Tal modelo, em nome da governabilidade, há muito tempo vem campeando à solta e sem pudor na troca de apoio político por cargos em todos os escalões do governo. Em termos práticos, não há muita diferença entre o tráfico de influência tipificado juridicamente como doloso, o hábito fisiologista e o "toma lá dá cá", que geram elevadas despesas, incham o Estado com cargos em comissão e reduzem drasticamente a sua produtividade, em prejuízo da população.

Discutir essas questões de modo aprofundado, sereno e isento seria muito pertinente para os objetivos de combate à corrução e o dimensionamento mais preciso do que é ou não crime e/ou antiético. Afinal, "influência" é uma palavra de múltiplas variações semânticas no Brasil. Será impossível o aperfeiçoamento do Estado e a depuração moral da política sem um amplo debate da questão pela sociedade, a mídia e as instituições.

Infelizmente, porém, tem sido muito difícil o estabelecimento de um diálogo civilizado no País, a começar pela imprensa, que, resguardadas honrosas exceções, elegeu bandeiras, nomes e legendas e entrou no jogo exaltado dos políticos, partidos, seus correligionários e eleitores. Há uma disputa retórica compulsiva e sem regras, travada nas redes sociais, nos ambientes profissionais e nas famílias. Independentemente das causas, o adversário é sempre sumariamente culpado, mesmo que a denúncia seja infundada ou fake.

O Brasil perdeu a razão! Em decorrência, reduziu muito sua capacidade analítica, crítica e os espaços de diálogo. Daí a dificuldade de se conceituar de modo adequado e isento, o certo e o errado, o crime e a inocência, o ético e o antiético. Vivenciamos a "República do Maniqueísmo", onde o bom sou sempre "eu" e o mau é sempre o "outro", não importando se ambos estejam errados. Perde o país, perde a sociedade!

*Ana Paula Caodaglio é sócia-titular da Caodaglio & Reis Advogados Associados.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Brasil e totalitarismo

*Leonardo Torres

A palavra das últimas semanas foi violência. Os jornais estão noticiando agressões por todo o Brasil. Nas redes sociais, vídeos estão sendo divulgados registrando discussões, brigas, espancamentos e mortes. O país que sempre se vangloriou de sua cordialidade, diversidade, alegria e amor, tornou-se o país do ódio e da violência.

De que lado o ódio está? Da esquerda ou da direita? Exclusivamente, de nenhum dos dois. O ódio está do lado do totalitarismo. Infelizmente, a motivação da facada que fez de vítima Jair Bolsonaro foi a mesma motivação que matou um mestre de capoeira, em Salvador.

O ódio, nesses últimos anos, tem sido gestado na alma do brasileiro, sendo alimentado pela angústia de um país cindido, de direitos perdidos, de educação e saúde precárias, de corrupção generalizada e de uma mídia que mais confunde do que informa. Tudo isso gerou, sem dúvidas, uma crise plural: social, política, mental, ambiental, etc.. Crise essa que é muito similar ao período alemão que precedeu o nazismo. Na história, vimos que o ódio, seja de qualquer povo, quando gestado, tem que escapar de alguma forma. E, na maioria das vezes, os povos elegem a forma mais primitiva e sombria para esse escape: a violência.

Hannah Arendt, grande estudiosa do totalitarismo, aponta que o embrião desse movimento é o isolamento dos indivíduos, ou seja, deixar todos contra todos – de fato, cindir a população. E então, fazer o povo crer em uma bipolaridade do que é verdadeiro e do que é falso. Do que é real e do que é irreal. De quem é o herói e de quem é o inimigo. Essa dinâmica, muito recorrente em nossos antepassados, não é algo difícil de ser aderida pela população, pois ela é simples, não é preciso pensar muito, nem estudar, nem se aprofundar. É algo dado. E parece ser mais atual do que nunca em nosso país.

No Brasil, existe a dinâmica "pai-herói contra o mal". Somos um país que possui a alma do órfão ferido. Não temos um fundador ou herói da nação na História, tentaram enxergar o pai-herói em Tiradentes, em Vargas, nos militares, em Collor, em Lula, em Moro (pediram até que ele se candidatasse) e, agora, em Jair Bolsonaro. Curiosamente, não é à toa o número de filhos que não tem o nome do pai em suas certidões de nascimento.

Nessa polarização, considerar um como pai-herói é imputar no outro todo o mal existente. Essa é a dinâmica do bode expiatório, estudada por Rene Girard, cuja finalidade é a contenção das tensões sociais pelo derramamento de sangue, pela violência. Portanto, é necessário ponderar a exaltação de um ou outro candidato, principalmente quando ele promete resolver os problemas de forma rápida e prática.

Nossa recente pesquisa sobre contágio psíquico demonstra que uma parte da comunicação humana não se dá somente pela linguagem, mas também pelas emoções, sejam benéficas ou maléficas. E, assim como a comunicação, o contágio psíquico é um dos formadores dos pensamentos e julgamentos de uma sociedade. O ódio é uma emoção, portanto, é contagioso. Ele não passa pelo crivo da racionalidade, ele está aquém dela. Ele é irracional e inconsciente, e isso dá as bases para o isolamento e para a bipolaridade vividos hoje. De certa forma, o ódio está na alma.

Apesar de termos percebido agora, é responsabilidade nossa tudo o que está sendo gestado em nossas almas, consciente ou inconscientemente. Resta-nos escolher se vamos ou não nos contagiar por essas emoções.

*Leonardo Torres, 28 anos, doutorando e mestre em Comunicação e Cultura Midiática, palestrante e professor universitário.